sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Professores contam como estatística e mercado mudaram o futebol.

Os professores Chris Anderson e David Sally contam como a análise estatística e os negócios transformaram o futebol e de que maneira os dados coletados por empresas e times podem ajudar a compreender os detalhes deste esporte no livro "Os Números do Jogo".
Divulgação
O fato é mais poderoso do que aquilo em que você acredita
O fato é mais poderoso do que aquilo em que você acredita
"A análise estatística é a tecnologia de ponta no esporte, e está crescendo de forma exponencial no futebol", contam. "Dirigentes, olheiros, jogadores e cartolas, todos querem levar vantagem, e informação é poder."
Hoje, empresas fornecem dados cada vez mais complexos aos clubes. "Para dar algum sentido a esses números, e tirar deles algum aprendizado, é preciso analisá-los."
Em busca de qualquer vantagem dentro de campo, os registros levam em consideração quais são os jogadores que vendem mais camisas e quais levam mais torcedores ao estádio e o comportamento de consumo enquanto a bola rola.
Com o subtítulo "Por que Tudo que Você Sabe Sobre Futebol Está Errado", o volume também traz debates sobre a formação mais eficiente, avalia quais as chances de um gol em lançamentos longos e outras curiosidades do esporte.
Professor de estatística da Universidade de Corneel, em Nova York, Anderson já prestou consultoria a diversos clubes. Sally é professor na Tuck School of Business e analisa as estratégias ao jogar, competir, negociar e tomar decisões.
Abaixo, leia um trecho de "Os Números do Jogo".
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A ANÁLISE ESTATÍSTICA NO FUTEBOL DE HOJE
No coração da casa de Roberto Martínez fica uma tela de televisão de sessenta polegadas, sensível ao toque de uma caneta. Ela está conectada a seu computador pessoal, em que está instalado o software mais avançado da Prozone. Quando volta de uma partida, o técnico espanhol do Wigan - que será um dos heróis deste livro - passa horas trancado revendo várias vezes o último jogo de sua equipe; às vezes ele chega a assistir o confronto dez vezes antes de se dar por satisfeito. "Minha mulher adorou quando eu instalei o software", disse Martínez ao jornal Daily Mail. "Ela compreende que eu preciso desse espaço e desse tempo antes de voltar a ser eu mesmo. Quando eu encontro uma solução, eu me sinto bem."
Martínez está longe de ser uma exceção. O futebol pode ser ainda um negócio à moda antiga, em que os treinadores obedecem à velha tradição de coletar dados e inteligência por conta própria, assistindo aos jogadores em treinos e partidas, lendo o noticiário, consultando a comissão técnica, escutando os olheiros. Mas os clubes de elite complementam esse trabalho com um departamento de análise, ocupado por assistentes de confiança, que ajudam o técnico a ver o que está e o que não está acontecendo.
É isso que Steve Brown e Paul Graley fazem para David Moyes no Everton. Os analistas de jogos do treinador passam horas preparando e destrinchando as partidas da Premier League de forma meticulosa, examinando o ataque e a defesa de seus próprios jogadores e dos adversários, preparando material de apoio a respeito do marcador direto de cada jogador. Antes de um jogo, eles examinam pelo menos cinco partidas anteriores do rival, compilando relatórios estatísticos e combinando-os aos dados da Prozone. Usando os dados e o vídeo, eles observam o estilo, a forma de jogar, as forças e fraquezas, o posicionamento e os pontos fracos e defeitos dos adversários. Tudo isso é mastigado e apresentado a Moyes, que condensa um pouco mais o material e apresenta as conclusões a sua equipe.
Brown e Graley também trabalham individualmente com os jogadores. Alguns se reúnem com eles, antes das partidas, para fazer o dever de casa e estudar os padrões de jogo de seus marcadores. Às vezes eles se juntam em grupos, discutindo tudo até no próprio dia do jogo - principalmente quando no time adversário algum jogador vai ser improvisado em outra posição, ou um novo jogador vai estrear. Assim que termina a partida, o pessoal do Everton começa a análise pós-jogo. Graley repassa algumas vezes o jogo, junto com os treinadores, resumindo o que deu certo e o que não deu. Uma vez mais, o treinador é parte do processo, e os jogadores aprendem individualmente o que fizeram direito e o que fizeram mal, para corrigir na partida seguinte.
Você deve estar imaginando que os homens cujo emprego consiste em peneirar os pontos fortes e fracos de seu time e do adversário - os homens que detêm a chave para a vitória do próximo fim de semana - têm assento próximo ao centro do universo do Everton, à direita do treinador.
No entanto, quando fomos visitá-los no centro de treinamento de Finch Farm, nos subúrbios de Liverpool, descobrimos que seu escritório é apenas mais um, entre tantos ao longo do corredor que leva ao refeitório. É um espaço funcional, que nada tem de excepcional. Pouca coisa sugere que tipo de trabalho se dá ali: pastas de arquivo empilhadas em escrivaninhas padrão, perto de computadores de mesa; Steve e Paul sentam-se em cadeiras de escritório comuns. Poderia ser um escritório qualquer, de qualquer setor, em qualquer lugar.
Não fosse pelo quadro branco de táticas no canto, e o software na tela, nada indicaria que aquela sala se dedica à análise da melhor maneira de maximizar o desempenho em uma das ligas mais ricas, glamorosas e emocionantes do mundo.
De certa forma, é justo que os analistas do Everton - e dos outros clubes que vimos - sejam apenas uma engrenagem no mecanismo da operação de um clube de futebol. Brown, Graley e companhia são criaturas relativamente recentes. Em geral, no futebol, ninguém sabe direito o que fazer com eles. São o acréscimo mais recente às comissões técnicas; menos estabelecidos que os treinadores, olheiros e fisioterapeutas, menos até que os psicólogos, ainda têm uma posição incerta no organograma.
O advento desses profissionais não passou despercebido pelo mercado, porém. Nos dez ou vinte anos desde que os primeiros analistas de futebol foram contratados, surgiu toda uma indústria de fornecedores de dados para alimentar seu apetite, seu desejo interminável por mais - e melhor - informação para transmitir aos treinadores.
A primeira dessas empresas a surgir foi a Opta Sports, fundada por um grupo de consultores de negócios que, nos anos 1990, decidiu criar um índice de desempenho de jogadores de futebol. Como nos disse o diretor de conteúdo Rob Bateman, o objetivo era simplesmente "chamar a atenção do público para a marca". A Opta contatou a Premiership (como foi chamada, entre 1993 e 2007, a principal divisão do futebol inglês); obteve financiamento da Carling, patrocinadora da liga naquela época, e Don Howe, ex-treinador do Arsenal e da seleção inglesa, foi contratado para trazer conhecimento de futebol. O índice foi lançado em 1996 no canal de tv por assinatura Sky Sports, e no jornal The Observer, mas a Opta logo descobriu que a informação que coletava valia muito mais que a publicidade que o índice trazia para a empresa. Ela podia vendê-lo aos meios de comunicação, locais ou não; depois, descobriu que os clubes queriam desesperadamente aquela informação.
Quando a Opta surgiu, codificar os acontecimentos de uma partida levava cerca de quatro horas, usando caneta e papel e apertando stop e play em um videocassete. Os lances que eram anotados eram básicos: passes, chutes, defesas. O nível de detalhe que os analistas da Opta registram agora está a anos-luz de distância daquele início despretensioso. Tomemos como exemplo a final da Champions League de 2010, entre o Bayern de Munique e a Internazionale, de Milão. Naquela noite, a equipe de três analistas da Opta registrou um total de 2.842 eventos, um a cada dois segundos de jogo, aproximadamente. Um analista foi selecionado para seguir a Inter, outro, o Bayern. Ambos eram especialistas em seus assuntos - tinham seguido as partidas, anotado todos os lances, durante toda a temporada. Juntava-se a eles um colega no papel de observador, apontando erros e omissões.
Depois de mais de uma década de existência, no entanto, a Opta tornou-se apenas uma entre várias empresas desbravadoras, formadas para satisfazer o vício crescente do futebol pelos números. O Everton, como vimos quando fomos recebidos no santuário de Steve Brown, é assinante do Prozone, uma empresa com sede em Leeds, criada para fornecer dados escolhidos especificamente para auxiliar a detecção e o treinamento de jogadores. No verão de 2011, ela fundiu-se com uma rival francesa, a Amisco, e as duas marcas, hoje, compartilham a liderança do setor.
Se antes os clubes se apoiavam na rede de relacionamentos com os rivais para obter vídeos das últimas partidas - um método baseado na confiança mútua, o que nem sempre dava certo, fazendo com que alguns vídeos sumissem inexplicavelmente -, a Amisco e a Prozone desenvolveram uma tecnologia que possibilita não apenas analisar mais rapidamente os jogos de uma equipe, mas aumentar ainda mais a obtenção de dados.
Eles instalaram câmeras bem acima do campo para seguir os jogadores individualmente, para dar a treinadores, cientistas do esporte e similares o tipo de informação que eles mais desejam: o quanto um jogador correu, a que velocidade, e como o andamento da partida afetou o resultado. Em seguida, eles casaram o vídeo com um software que permite indexar os jogadores e os lances: agora, é fácil fazer compilações dos lances de um jogador, ou de todos os gols que o adversário tomou. Com um simples toque num botão, no conforto de sua poltrona, Martínez pode assistir a todos os escanteios de sua equipe ou todos os passes errados de seu meio-campo.
A Prozone e a Opta não estão sozinhas. Há muitas outras empresas trabalhando no mesmo terreno, no mundo inteiro: a Impire, na Alemanha; a Infostrada, na Holanda; a Match Analysis e a Statdna, nos Estados Unidos...
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"Os Números do Jogo"
Autores: Chris Anderson e David Sally
Editora: Paralela
Páginas: 352
Quanto: R$ 31,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha
Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.
Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

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